quinta-feira, setembro 18, 2008

Reciclado - A minha tia Rita e os Santos

A Minha Tia Rita, de quem já falei aqui, só tinha como horizonte filosófico, o trabalho braçal e como objectivo último de vida, terras cheias de milho, trigo, batatas, feijão, couves, uvas, etc. Como transcendência tinha uma santa, de quem era muito devota, a Senhora da Alegria: era a sua santa favorita e a quem fez novenas e rezou, todos os dias, durante os anos que os seus quatro filhos, rapazes, estiveram em África, na guerra colonial. Dos outros santos, da nossa aldeia, ela não gostava muito, apesar de os usar, constantemente, nas suas metáforas - S. Tiago, que é o padroeiro lá da aldeia, como é representado com um bordão e uma cabaça, para ela, era o padroeiro do bêbados, portanto desprezível, e então S. Sebastião? bem, esse nem valia a pena falar, para ela, era sinónimo de pobreza e miséria, se nem sequer tinha uma peça de roupa a cobrir o seu torturado corpo, crivado de setas! Nos altares, as suas imagens, mostram-no apenas com uma tanga, a tapar-lhe as vergonhas. Por isso, quando eu era miúda e como não gostava de trabalhar no campo (sou alérgica a praticamente tudo, desde a palha do milho, ao pó das favas e até, pasmem!, ao orvalho da manhã! eu sei que não acreditam, mas que é verdade, é) e sempre que podia, fugia e ia-me esconder, a ler um livro ou coisa que o valha. Por tudo isso, a minha Tia Rita, não me augurava um bom fim. Quando me apanhava a ler um livro, olhava para mim com comiseração e dizia: "ai rapariga, tu nunca vais ter nada de nada, na vida! Com o caminho que levas, vais ter tanto de bens, como o S. Sebastião tem de calções!" Por causa destas previsões, vivi aterrorizada toda a minha adolescência, e, ainda hoje, quando vejo uma imagem de S. Sebastião, me lembro, com receio, das palavras da minha Tia Rita e lá vou eu a correr, comprar mais uns trapitos, só para me prevenir! Não vá o diabo tecê-las!

Etiquetas: ,

2 Comments:

Anonymous Bruno Rosado said...

Muito giro :)

6:44 da tarde  
Blogger S said...

A tua tia não estava completamente errada. De muitos retalhos juntos e "ajuntados" se compôs a tua vida e só mesmo os tolos são felizes.

Já a minha querida avó apostou todos os ouros nas alminhas do purgatório. Em que trapos terá ficado a lógica dela quando o Papa o aboliu para as pequenas almas?

10:46 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home