segunda-feira, março 26, 2007

Almalaguês- As Tecedeiras

Lembro-me de quando era miuda, as mulheres da minha aldeia - Almalaguês - trabalharem muito: faziam os trabalhos do campo, ao lado dos homens, tratavam dos filhos e da casa e depois disto tudo feito, iam para o tear (praticamente não me lembro de ver nenhuma mulher sentada, desocupada, sem fazer nada!), No tear, trabucavam pela noite fora e mesmo de madrugada, entaladas entre dois rolos de madeira e agarradas às "queixas"* do tear, batendo, batendo, truca, truca, ruca truca... Depois da obra feita (tapetes, carpetes colchas, passadeiras, normalmente encomendas feitas por senhoras da cidade), levavam-na para vender e trazer alguns trocados para casa. Lembro-me, especialmente, da minha tia Guilhermina, que naqueles tempos de miséria e de severa emigração, tecia e cantava, com uma voz tremidinha esta triste e singela canção de despedida:
Adeus Maria que me vou daqui embora
à procura da riqueza e da fortuna
Adeus Maria não me esqueças nesta hora
Adeus Maria meu amor minha beleza

Tenho pena de só me lembrar desta quadra. Lembro-me também duma canção, muito popular, cantada pelo rancho das raparigas e rapazes da aldeia e que era mais ou menos assim:

Namorei a tecedeira
Pelo buraco da chave.
Ela estava ruca-truca!
Minha porta não se abre!...

Minha porta não se abre.
Minha porta não se há-de abrir!
O papá estava acordado,
A mamã estava a dormir.

A mamã estava a dormir,
O papá estava acordado!...
Ela estava ruca-truca,
A tecer com mais cuidado!...


*queixa, é aquela parte do tear onde está instalado um pente e que serve para ajustar os pontos que a tecedeira vai bordando com um gancho.

1 Comments:

Blogger nanda said...

Apesar de "tristes" são memórias bonitas.

Bjs

2:51 da tarde  

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