quinta-feira, junho 19, 2008

O Sr. Manuel R. e a "justiça divina"

Não é homem de desistir de nada, nem a adversidade o abateu. Longe de ser velho, apesar dos seus oitenta anos, tem aquela fibra que faz mover montanhas. Sentado na esplanada da cervejaria que lhe pertence, conta-me a sua história, como se fizesse o balanço da vida, sem vaidade nem arrogância, mas com o orgulho natural de um vencedor. Mostra-me também o restaurante e diz: "Sabe, vim de Angola em 75, chamavam-nos retornados, lembra-se?" Recorda o passado e parece-me que exorciza as mágoas dos 23 anos passados a trabalhar em África e ter regressado, apenas, com mulher, dois filhos e "cinco contos". Quando chegou, vendeu (ó dor!) um Mercedes, que cá tinha (diz que praticamente o deu, porque, naquele tempo, ninguém o queria) e comprou uma camioneta de carga, para ir vender nas feiras:"sim, fui fazer feiras, tinha que começar com alguma coisa! Já viu, aos 45 anos ter de recomeçar tudo do zero?" Elogio-lhe a coragem e ele diz-me que acredita na "justiça divina", mostro-lhe as minhas dúvidas sobre a universalidade deste conceito, mas ele não desarma: "olhe só, quando cá cheguei, fiquei praticamente na rua - tinha uma casa, aqui, em Tomar, mas estava alugada e quando fui pedir ao inquilino que me deixasse habitar o sótão, respondeu-me que precisava dele para as batatas e não tinha lá batatas nenhumas. Passado três meses, estava eu já a viver numa garagem alugada, recebo uma carta da mulher dele a dizer que eu podia ir viver para a minha casa, porque o marido tinha morrido. Está a ver?" Continua, "ainda tenho outra história e passada em Angola: eu tinha lá um negócio, vendia comidas e bebidas. Um dia, apareceu-me lá na loja um tipo negro, que precisava de regressar a Luanda, mas aquela hora já não havia transportes para a cidade, disse-lhe que esperasse, podia passar algum carros ou camioneta e eu pedia que lhe dessem boleia. Assim foi, ele bebeu ali umas cervejas comigo e depois, lá apareceu um transporte e ele regressou à cidade. Nunca mais o vi nem pensei nele até ao dia em que as coisas se começaram a complicar e eu tive a certeza de que tinha que vir embora, ou pelo menos, mandar a mulher e os filhos. Fui a Luanda para comprar as passagens de regresso a Portugal, mas qual o quê? Havia uma grande confusão e uma enorme fila de pessoas, com a mesma intenção. Estava eu quase desesperado quando vejo um indivíduo negro avançar direito a mim e dizer: eu não o conheço de qualquer parte? Olhei bem para ele e lembrei-me que era aquele tipo a quem, em tempos, eu tinha arranjado boleia. Ele também me reconheceu, contei-lhe os meus intentos. Espere aí um pouco, disse ele, e, passado meia hora regressou com os bilhetes! Está a ver? Há justiça divina ou não há?" Comovo-me e penso, quem sou eu para contradizer o Sr. Manuel R.?
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3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

abri hoje o teu blog. felicito-te pela publicação de outra das tuas crónicas de que continuo a gostar. e, digo isto porque 1o: gosto dos temas e do afecto com que os tratas; 2o:tenho como certo que muita gente te lerá com agrado, tal como eu, no jornal on line em que as tuas crónicas são publicadas, nas ilhas de bruma, encantadas e encantadoras; 3o: é bom saber que o teu vasto saber também tem a ver com os mais valiosos valores da vida (ainda que pareça um trocadilho não o é).
Até à próxima crónica. rc

9:47 da manhã  
Anonymous Carolina said...

Parabéns! Por esta e pelas outras crónicas! (sim li-as todas do início ao fim =) )
beijinhos

1:10 da manhã  
Blogger frosado said...

Obrigada minha querida, � bom saber que, apesar de teres tanto que fazer, me d�s aten�o...

9:06 da manhã  

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