“Atidos a sapatos de defunto”
Como não tenho herdeiros directos, vou avisando os meus sobrinhos, que, no meu caso, não estejam “atidos a sapatos de defunto”, porque não vou deixar nada a ninguém, a não ser, talvez, umas dívidas - tenciono gastar tudo, o que não é muito difícil, claro. Eles preocupados: “dívidas porquê?” Tenho para mim, que, se lhes deixar dinheiro, ou outras probendas, eles, que até se dão todos bem, vão zangar-se por causa disso. Mas, se, por acaso, lhes deixar umas dívidas, como são pessoas honradas e de vergonha na cara, vão cotizar-se para as pagar. Estou cansada de ver filhos/irmãos, que sempre se deram bem, zangarem-se e afastarem-se uns dos outros, na altura das partilhas. É frequente, quando os pais envelhecessem, ou morrem e há herança, ver abrir-se a caixa de Pandora e os herdeiros à batatada. Mas pior do que isto, é, começarem, ainda em vida, a espoliar os pais e tirarem-lhes de casa, móveis, louças, roupas, dinheiro, enfim, coisas que são suas e que constituíam o seu mundo, com o argumento de que eles já não ligam, ou que já não precisam, ou que nem vão dar por isso. Absolutamente execrável e desumano. Depois, tudo isto será seguido da inevitável lista de acusações e brigas (tribunais, às vezes), porque aquele levou as coisas melhores e só deixou quinquilharia para os outros, etc., enfim, obsceno! Parece uma fatalidade: onde há bens, há cobiça. Eu e os meus irmãos, como não tínhamos quase nada para dividir, nunca nos chateámos por causa de partilhas. Claro que, discutimos e ralhamos uns com os outros, como qualquer família "Silva" que se preza, mas sempre “numa boa”, sem acintes nem rancores e sem deixar de falar uns com os outros e nunca, nunca, por causa dos bens materiais. É por isso que digo aquilo aos meus sobrinhos. “Ó Tia gasta lá tudo o quiseres (eles sabem bem como eu sou capaz disso), mas não deixes dívidas, por favor”, pedem eles, com receio de que eu desate a gastar demais e morra endividada. Vou-me esforçar por lhes fazer a vontade, mas não garanto.
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